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Archive for the ‘Política’ Category

O verdadeiro avanço

junho 16, 2014 Deixe um comentário

Tem muito tempo sem nenhum post, comecei a priorizar outras coisas, muitas mudanças no trabalho, fazendo diversos cursos, uma filha, enfim, meu mundo virou de cabeça para baixo. Estava justamente pensando nisso esses dias, nunca mais nada escrito aqui, na verdade fora os registros que fiz sobre minha filha, nada em lugar algum.

Diversos assuntos que gostaria de comentar me chamaram a atenção durante esse tempo, mas ainda assim não consegui transformar essa vontade em texto.

Ainda que tenha sido dessa forma, o post atual não é fruto de um interesse maior no assunto, apenas coincidiu de reencontrar um assunto que vi no noticiário especializado e hoje, durante um intervalo entre atividades ver de novo, logo depois de mais uma vez lembrar que nunca mais tinha escrito nada.

A energia fluindo é sempre impressionante

A energia fluindo é sempre impressionante

O que vi e achei inesperado, mas de verdade uma decisão bem ponderada foi que a Tesla Motors decidiu abrir mão de todas as suas patentes para que o desenvolvimento do carro elétrico possa aumentar o ritmo, fez um comunicado oficial da decisão em seu site. Parece loucura, já que eles produzem carros elétricos e “vivem disso”, porém precedentes importantes apontam em outra direção.

O desenvolvimento de software hoje parece mostrar o contrário disso, mas a maioria das linguagens de programação foram criadas num ambiente muito diferente. O movimento open source parece marginal nos dias atuais, mas antes era o comportamento padrão, todo software era compartilhado. Foi assim que tudo começou.

Na verdade foi assim que tudo começou para todos que se envolvem com tecnologia, porque o conhecimento é acumulado ao se observar o que outros fizeram, se nada fosse compartilhado não haveria programadores novos e ainda estaríamos usando cobol e assembly.

Claro que isso se trata de software e muita gente que conhece esses fatos apoia (por alguma razão desconhecida) o modelo atual de desenvolvimento de software, afinal como as empresas iriam sobreviver sem proteger sua propriedade intelectual? E mais, o que tudo isso teria a ver com patentes, já que os carros elétricos tem muito mais hardware do que software a ser protegido?

O modelo no fim das contas é o mesmo e o desenvolvimento de um setor como um todo é muito maior como ocorreu com o software em seu início e há um bom exemplo disso.

No início dos anos 80, os computadores ainda eram do tamanho de salas, e tudo apontava para um mundo onde computadores cada vez maiores seriam a solução, já que não havia motivos para pensar que seria viável computadores pessoais. Já havia os Macintosh da Apple, bem caros, e poucos outros, como o Sinclair e o Commodore 64, ambos mais usados para jogos do que para qualquer outra atividade.

Como esse cenário chegaria onde estamos hoje? Computadores espalhados por toda parte, milhões deles? Simples, uma das maiores empresas do ramo, a IBM, acreditou no que chamaram de computador pessoal, o PC (da sigla em inglês). Desenvolveram em segredo o que viria a ser o início de tudo que conhecemos hoje como computador.

Deu muito certo, mas para que o desenvolvimento dessa tecnologia pudesse mesmo atingir a todos precisava de muito mais ideias e muito mais gente produzindo, além de um sistema operacional. Ironicamente a empresa que entrou com o sistema operacional e saiu do ostracismo por essa jogada da IBM hoje é um dos maiores exemplos de barreira ao movimento open source, a Micro$oft. Até então era apenas uma pequena empresa vendendo um sistema operacional que parecia não interessar a ninguém.

Como todas as partes do novo PC eram desenvolvidas de maneira aberta para que todos pudessem acompanhar, foi um grande sucesso em poucos anos se tornou o padrão nas casas por todo o mundo.

Se a Tesla Motors conseguir que o desenvolvimento do carro elétrico tenha um avanço maior com a desistência de suas patentes é possível que em breve seja tão comum ver um deles como ver um movido a gasolina. Talvez, mais adiante nem haja mais movidos a motor de combustão interna, esperemos.

Parabéns à Tesla Motors pela iniciativa e que tenha sucesso.

Logo da empresa de carros elétricos

Logo da empresa de carros elétricos

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Recomeço interessante

botão iniciar

Tempos atrás pude participar de uma iniciativa que buscava analisar a viabilidade de uso de Software Livre em Desktops no STF, que já usa em servidores e alguns softwares isolados. Cheguei a publicar aqui como essa grande mudança estava começando, mas como tudo depende do direcionamento superior, se os cabeças mudam tudo pode mudar. Não parece a melhor forma, mas é a realidade.

Agora em outra área, uma nova iniciativa também avalia a viabilidade de uso de Software Livre nos Desktops, com um enfoque completamente diferente, estações de trabalho para desenvolvedores. Ainda em fase de testes, algumas estações estão rodando o OpenSuse 12.3 em dual boot com o Windows já presente nas máquinas.
A ideia é saber quais problemas podem ser enfrentados numa possível troca de padrão, pelo menos para os desenvolvedores dispostos a usar Linux em suas máquinas.
Os voluntários tem papéis diferentes e se ajudam na solução dos problemas que vão surgindo, como a configuração da rede, colocar a máquina no domínio interno, configuração das IDE‘s, email corporativo, entre outros.
Sobre o email, como o ambiente é Exchange 2007 em transição para o 2010 no servidor, tivemos de fazer funcionar nas duas plataformas e MS Outlook 2010 nas máquinas cliente. Depois de algumas tentativas frustradas conseguimos configurar com sucesso. Por isso resolvi publicar uma dica no site Viva o Linux para compartilhar a solução com outros com o mesmo problema, máquinas cliente rodando Linux com Evolution tendo de se conectar a servidores Exchange com email, tarefas e agenda compartilhados, como é o padrão de quem usa esse tipo de solução.
Espero que isso possa ser só o início de uma avaliação maior que demonstre que o Software Livre não só é viável em ambiente corporativo do governo, como também é preferencial por sua eficiência e menor custo.

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Participação no Consegi 2011

maio 20, 2011 Deixe um comentário

Consegi 2011

O Congresso Internacional Software Livre e Governo Eletrônico – Consegi, está na sua 4ª edição (minha 3ª participação) aconteceu em Brasília, nas dependências da ESAF, de 11 a 13 de maio de 2011. O tema para essa edição é Dados Abertos para a Democracia na Era Digital, embora diversos assuntos tenham seu lugar e tenham sido tratados.

No site do evento pode ser encontrada toda a programação de palestras e oficinas oferecidas aos participantes do evento, de uma variedade incrível, apesar da maioria estar ligada ao tema central. Como quase toda a programação era concorrente, seria impossível participar de uma pequena porção, ainda mais de tudo disponível.

o sobre shell script completamente grátis, Participei de algumas palestras a respeito de dados abertos no governo, por ter muito interesse no assunto por conta do meu trabalho, com destaque para a categoria "Dados Abertos, e-Democracia e Gestão de Conhecimento Governamental" e mais especificamente o debate "Dados Abertos e as questões sobre Privacidade, Integridade, Disponibilidade, Credibilidade e Autoria" com a participação de Rufus Pollock da OKFn (Open Knowledge Foundation) e Cláudio Berrondo do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial).

O destaque para esse debate em particular é por conta das questões levantadas, de muito interesse para quem se interessa por dados abertos, principalmente no governo. Um bom exemplo seria quais dados podem ser abertos e de qual maneira, como bem lembrado pelo representante do INPI, dados sujeitos a patentes podem gerar outras patentes, logo deve haver um cuidado sobre a licença usada nessa liberação, ou quem libera os dados pode vir a ter que pagar royalties por dados que originou.

Uma solução para esse problema poderia ser uma licença de dados abertos proposta pela OKFn, Open Data Commons, que pode ser do tipo "share-alike", que prevê que os dados abertos usados podem gerar mais dados que também devem ser compartilhados, da mesma forma que os originais.

Outra parte foram as oficinas, ao invés de debates ou explanações, assuntos mais específicos, como mini cursos. Participei de uma sobre o ASES, um software livre do governo, disponível no portal do software público, que analisa sites com relação a qualidade no html, css, baseado no W3C e no e-MAG (padrão do governo para construção de sites e portais) e acessibilidade, incluindo usabilidade e barreiras com relação a visão (para cegos, com diferentes problemas de daltonismo, miopia, glaucoma, entre outros), muito interessante e muito útil, além de promover consciência e inclusão, recomendo muito.

Também participei da oficina de Expressões Regulares do Júlio Neves, que me lembrou mais uma vez da importância e da flexibilidade do shell do Linux, capaz de muito mais do que se imagina e de maneira simples e elegante. Vale lembrar que no site do Julio você encontra um livro sobre shell script completamente grátis, compensa uma visita.

Outra oficina muito interessante foi a do Inkscape, que não pude participar por absoluta falta de vagas, software de desenho vetorial, muito bom e poderoso. Para quem conhece é difícil achar melhor, mesmo entre os proprietários, simples e direto e capaz de rivalizar com o top de mercado sem fazer feio, além de ser de graça. É um dos casos onde o líder só é líder por ignorância de muitos, tive a oportunidade de comparar durante um curso e não achei ferramentas melhores ou mais sofisticadas.

Outra coisa importante foi ter encontrado o pessoal da Transparência Hacker e discutir o projeto de transparência para o legislativo e suas implicações, o que me fez entrar na lista de discussão deles e começar a contribuir com esse e outros projetos em andamento, muito interessantes e importantes para o país.

Por último, mas não menos importante, para ficar com o clichê, mas que é verdade, participei do Installfest, com uma sala exclusiva durante o evento. Pude participar durante duas tardes, ajudando novos usuários com suas dúvidas a respeito de Linux e também ter duas sessões exclusivas para o Fedora, mostrando aos participantes o passo-a-passo da instalação do Fedora 14 numa máquina virtual, com otimização de particionamento, alguns macetes e dicas pós instalação.

Algumas mídias distribuídas com o pessoal do evento e várias ISO’s copiadas pelos participantes garantiram que o Fedora estivesse acessível a todos os interessados. Também divulguei o lançamento do Fedora 15 e com ele suas principais mudanças, como a versão nova do KDE, o inédito Gnome 3 tão aguardado e com tantas mudanças que pude comentar com o pessoal presente, o novo sistema de arquivos, entre outras novidades interessantes.

Foi um evento interessantíssimo e por isso um post tão longo, mas que vai trazer muita coisa boa para meu desenvolvimento no trabalho e nos projetos que participo, pretendo continuar participando nas próximas edições e pode ser o mesmo para outros para quem posso dizer que vale a pena estar lá.

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O primeiro passo para um mundo maior

julho 16, 2008 12 comentários

É bastante comum ao fazer menção a alguma notícia colocar alguma comparação a uma citação conhecida, como uma música ou um pensador ou, nesse caso, um filme. Assim como Luke Skywalker ao conseguir pela primeira vez usar “a Força”, em um dos primeiros treinamentos a bordo da Millenium Falcon, ouviu de seu mestre Obiwan Kenobi que esse era seu primeiro passo para um mundo maior, foi exatamente o que pensei que estaria acontecendo no seguinte caso.

A preferência por Software Livre no governo está longe de se tornar uma realidade, apenas algumas iniciativas isoladas e alguns órgãos realmente estão fazendo alguma coisa, como já relatei nesse post. O programa foi lançado mais como propaganda do que como diretriz, mas alguns órgãos, muito por conta de restrições orçamentárias, começaram a se mexer.

Apesar de se tratar de uma diretriz do Poder Executivo, alguns tribunais já começaram a aderir à iniciativa. O Supremo Tribunal Federal, recentemente, criou o Núcleo de Software Livre e Padrões Abertos para estudar a questão e algumas decisões importantes foram tomadas. Uma, que deve beneficiar qualquer instituição com necessidades parecidas em termos de software, é a de disponibilizar alguns dos softwares desenvolvidos na casa com licença GPL no Portal de Software Livre do Governo Federal, possibilitando a economia com equipe de desenvolvimento interno sem qualquer custo para quem resolver adotar a solução proposta.

Outra decisão importante, que é justamente o motivo deste post, é a primeira tarefa já definida para o Núcleo, é o estudo para substituição da suíte de escritório, atualmente o MS Office 2003, por uma de código aberto, a solução escolhida foi o BrOffice.org, nome do projeto OpenOffice.org no Brasil. Alguns parâmetros foram passados para que a mudança fosse o menos sentida possível pelo usuário final, como o levantamento de todas as funcionalidades em uso com a atual suíte. Não poderá haver perda de funcionalidade, o que significa manter licenças proprietárias onde a nova suíte não puder atender plenamente o usuário.

A substituição na área de TI já está definida, as outras áreas deverão ainda passar por estudos mais profundos para evitar resistências e retorno à suíte em uso após a mudança. O caso servirá como piloto para as mudanças nas outras áreas.

A mudança parece tímida, mas para uma casa tão tradicional e onde a cultura leva muito tempo para se adaptar a qualquer mudança, já será um grande impacto. E como o Supremo tem grande influência, muito por sua posição de corte suprema, entre outros tribunais, alguns até que já começaram essa migração, a tendência de que o movimento se espalhe é bastante razoável. A suíte de escritório é apenas o começo, a intenção do Núcleo é o estudo para substituição de qualquer aplicação de licença proprietária por solução de código aberto, servidores, bancos de dados, CMS, ambiente de desenvolvimento entre outras.

A linguagem para desenvolvimento de novas aplicações foi padronizada e a escolhida foi o Java, as aplicações na intranet serão migradas, provavelmente para PHP, já há algumas aplicações que utilizam o MySQL e o PostgreSQL como banco de dados, o controle de versão dos softwares e documentos está sendo migrado para o SubVersion e alguns servidores já usam Linux, o Fedora para minha felicidade.

Realmente, esse é o primeiro passo para um mundo maior, muito maior…

Até quando esperar

abril 16, 2008 2 comentários

Quando vejo boas iniciativas do governo acabo ficando animado, esperançoso, mesmo que a realidade mostre que na maioria das vezes essas não vão para frente, seja por causa de um “preço político” que acaba inviabilizando, uma mudança de gestão que quase sempre descontinua os projetos da anterior, ou simples descaso.

Quando acontece algo assim, ou melhor, não acontece, lembro de uma música do Plebe Rude (como seria normal apenas citar tempos atrás, hoje tenho de explicar que se trata de uma banda de rock de Brasília famosa nos anos 80 e 90) que criticava o governo pela sua falta de ação. É, já se falava nisso naquela época e as coisas não mudaram tanto assim, dizia “…até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus..”. Significando que o povo não tem o que precisa, uma vez que o governo não age, e só lhe resta esperar pelo auxílio divino.

Logo no início do primeiro mandato do atual Presidente muito se falou em adoção de Software Livre, em espalhar a experiência do governo gaúcho de Olívio Dutra, também do PT, de migração e adoção de soluções livres. Mas pouco foi feito, na verdade, pouco depois do anúncio o que mais parece é que desistiram da idéia. Até que me 2004 foi lançado o Guia Livre, destinado a orientar as diferentes instâncias do governo no uso e migração para o Software Livre. Pareceu que finalmente tudo se encaixava, demorou um pouco, afinal é um assunto complexo. Mas de novo ficou só no guia. Fora algumas tentativas isoladas era difícil ver a preferência que o governo dizia dar ao modelo livre de software. O Guia foi atualizado, vejo datas de 2005 e 2006, mas nenhuma mudança relevante da primeira edição.

Até que essa semana foi lançado o site de Software Livre do Governo Federal, onde todas as iniciativas isoladas se congregam, onde praticamente todos os esforços tem sua voz. Não sei se é porque o site começou só essa semana e ainda não tem notícias próprias ou se realmente apóia iniciativas em prol do Software Livre, mas na página inicial tem um destaque para o 9º FISL que acontece de 17 a 19 de abril em Porto Alegre.

Tem mais o que ver no site, vi, por exemplo, um estudo de caso do Exército Brasileiro, com uma pequena cartilha a ser usada por todos os níveis de acordo com o tempo em que se iniciar o processo para cada uma. Pragmática e cheia de determinações, como seria de esperar numa definição de ações do Exército, dá instruções de como começar, buscar apoio, evitar resistência, seguir o cronograma, planejar a migração, começar pelos servidores e depois passar aos desktops, saber o motivo de se fazer a migração, adotar já de início o Open Office e outras.

Sendo o Exército uma instituição relativamente grande, espalhada por todo o país, com o orçamento custeado pela União, portanto facilmente rastreável, é fácil concluir que o sucesso de um projeto dessa envergadura serve de base e exemplo para a adoção do modelo livre em qualquer instância do Governo Federal, ou até de outras esferas. Não seria tão complicado assim usar a experiência como piloto e passar a adotar nos Ministérios, ainda mais que alguns deles já demonstraram inclinação para o livre e manifestaram apoio.

Alguns passos importantes já foram dados, mas a velocidade ainda é muito pequena. Já estamos na metade do segundo mandato e nenhum resultado concreto foi alcançado ou se vislumbra no curto prazo, o que pode significar uma nova mudança de gestão e o risco de um “engavetamento” sistemático de todo o processo. Mas isso não quer dizer que não existe nada, que o governo merece apenas críticas, muito pelo contrário. Se o que temos até agora é só um embrião, é porque tem pessoas no governo interessadas em movimentar isso sem força suficiente para fazer o que é necessário. Devem ser aplaudidas e ter todo o suporte possível da comunidade, principalmente a comunidade open source.

A economia gerada pela adoção de um modelo livre pode muito bem ser combinada com outras iniciativas, como o computador popular e a internet banda larga nas escolas, um projeto alavancando o outro, num ciclo virtuoso que não trará nada além de benefícios para o país, no médio e longo prazos, principalmente.

Resta saber se o governo dará andamento a esse projeto, se terá apoio político e financeiro para deslanchar, ou se teremos de esperar pela ajuda de Deus, como sugeriu o Plebe.

O Eixo do Mal

setembro 12, 2007 2 comentários

Recentemente, uma decisão da empresa americana Dell gerou polêmica entre a comunidade científica brasileira. Um físico da Universidade Federal Fluminense – UFF, comprou dois computadores da empresa. Recebeu num contato após a compra, um termo de compromisso no qual o pesquisador se comprometia a não transferir, exportar ou re-exportar os produtos adquiridos para o “Eixo do Mal”, para qualquer estrangeiro com dupla nacionalidade, natural ou residente dos países em questão; não utilizar os produtos para qualquer atividade ligada a armas de destruição em massa de qualquer tipo ou transferi-los para qualquer pessoa ou grupo envolvidos nessas atividades; e nem transferir os computadores para qualquer pessoa ou grupo embargados pelo governo dos Estados Unidos.

O Eixo do Mal referido no termo, claro, é o que o presidente dos EUA, George W. Bush, assim classifica, constituído por: Cuba, Irã, Coréia do Norte, Sudão e Síria. Uma vez que quem negociou a compra dos PCs foi um colega do físico, que é cubano e mora no Brasil há anos, a empresa se sentiu obrigada pelo governo americano a exigir a assinatura do termo, alegando que poderia sofrer represálias.

O mesmo físico já havia comprado outros computadores da Dell anteriormente sem o problema, ora, se a empresa vende seus produtos sem essa exigência. Ao que parece, o fato da negociação ter sido intermediada por um colega do físico, que é cubano, motivou a atitude, e não qualquer pressão do governo norte-americano, ou a empresa faria todas as vendas da mesma forma, ou pelo menos para qualquer país que tenha relações com algum do Eixo.

Vários cientistas sugeriram boicote aos produtos da empresa, alguns foram além, sugerindo boicote a produtos norte-americanos. Sendo como for, a decisão do governo dos EUA de boicotar, inclusive obrigando (naõ sei se realmente obriga, a Dell não é santa) as empresas com sede em seu território a participarem, provavelmente não é a melhor maneira de atingir o Eixo, se é que existe um.

A política externa do governo Bush não poderia ser mais equivocada. Está baseada numa premissa correta, a economia dos EUA é a maior do mundo e dita o humor do mercado. Todo mundo sabe que isso é verdade, claro que eles também sabem, é a lógica, quem acompanha o episódio da atual crise mundial, apenas porque o mercado imobiliário deles está mal, pode ver isso com bastante clareza. Mas isso é assunto para outro post.

Baseado nessas premissas, Bush faz uma política externa que exclui o resto do mundo de qualquer decisão sobre sua política externa. Boicota quem quiser, faz guerra com quem bem entender, invade se achar necessário e por aí vai. Desde o final da Segunda Grande Guerra que os EUA adotaram o posto de “polícia do mundo”, mas isso tem chegado a extremos onde não é aquilo que parece ser consenso que eles defendem, como poderia parecer numa visão mais ingênua, onde eles ajudam a manter a democracia no mundo. Muito pelo contrário, eles mantém as democracias ou regimes totalitários que forem de importância econômica para eles.

Até aí não tem nada demais, ou pelo menos nada que quase qualquer outro país do mundo não faria se estivesse na mesma posição. O que os torna diferentes é que sua política é predatória. Vários impérios já dominaram o mundo ao logo da história, como hunos, chineses, cartagineses, persas, hititas, egípcios, gregos, romanos, só para citar os que me vieram à mente agora. Desses, os que fizeram sucesso por mais tempo, ou eram isolados ou tinham uma característica em comum, o domínio era mais econômico que político. Os países dominados continuavam com sua cultura, seus deuses, sua moeda, em muitos casos até com seus governantes. Era isso que mantinha a unidade, o pagamento de tributos era suficiente para o império dominante e justificava a aquisição de cada vez mais terras.

Na sua cruzada, Bush tem cometido absurdos em nome de sua política externa. A perseguição a Bin Laden fere a soberania do Afeganistão, mas para eles não há outro país que tenha essa característica, soberania. A guerra contra Sadan, que existe mesmo gente que acredita que era para depor o regime, suprimir a ameaça terrorista (Papai Noel também estava muito angustiado, mostrou isso em carta dirigida ao Coelhinho da Páscoa) que acabou por “exigir” a presença do exército até o final da transição do governo, aliás, o problema não é em que acabou e sim que não acabou coisa nenhuma.

Quer dizer que acho que Bin Laden não é um terrorista perigoso e deve ser deixado em paz? Não, muito pelo contrário, ele deveria ter sido deixado em paz há uns 20 anos, quando a CIA o recrutou e treinou para prejudicar a então poderosa União Soviética. Aí o problema de hoje não seria esse, nem teria esse tamanho ou repercussão. Clássico exemplo onde o feitiço se volta contra o feiticeiro.

Não sou anti-americano, até porque, na minha opinião, americano é quem vive na América e isso não quer dizer EUA, mas o continente americano. Também não sou anti-americano no sentido mais restrito, contra os EUA, até sou simpático a eles, mas tudo tem limite, uma coisa é ser simpático e outra é deixar de ser patriota. Muitas pessoas tem vergonha de ser brasileiro, bem, não é o meu caso. O que me motiva a escrever isso não é esse tipo de sentimento, que acho até pobre, se quer realmente fazer algo, faça na arena deles, nada pior para eles que perder em seu próprio terreno, o capitalismo.

A motivação seria essa história toda em volta do Eixo do Mal, querendo fazer alusão às duas guerras mundiais, comparando ao nazismo e tentando levar as pessoas a acreditar que os EUA lutam pela liberdade. Nem quem lê história em quadrinho cai nessa mais. Para mim pode até existir um Eixo do Mal, mas quem procura nos países indicados pelo Bush deve estar procurando no lugar errado. Para mim o país da liberdade é aqui, onde eu posso tudo que a lei não me proíbe.

Categorias:Opinião, Política