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Até quando esperar

Quando vejo boas iniciativas do governo acabo ficando animado, esperançoso, mesmo que a realidade mostre que na maioria das vezes essas não vão para frente, seja por causa de um “preço político” que acaba inviabilizando, uma mudança de gestão que quase sempre descontinua os projetos da anterior, ou simples descaso.

Quando acontece algo assim, ou melhor, não acontece, lembro de uma música do Plebe Rude (como seria normal apenas citar tempos atrás, hoje tenho de explicar que se trata de uma banda de rock de Brasília famosa nos anos 80 e 90) que criticava o governo pela sua falta de ação. É, já se falava nisso naquela época e as coisas não mudaram tanto assim, dizia “…até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus..”. Significando que o povo não tem o que precisa, uma vez que o governo não age, e só lhe resta esperar pelo auxílio divino.

Logo no início do primeiro mandato do atual Presidente muito se falou em adoção de Software Livre, em espalhar a experiência do governo gaúcho de Olívio Dutra, também do PT, de migração e adoção de soluções livres. Mas pouco foi feito, na verdade, pouco depois do anúncio o que mais parece é que desistiram da idéia. Até que me 2004 foi lançado o Guia Livre, destinado a orientar as diferentes instâncias do governo no uso e migração para o Software Livre. Pareceu que finalmente tudo se encaixava, demorou um pouco, afinal é um assunto complexo. Mas de novo ficou só no guia. Fora algumas tentativas isoladas era difícil ver a preferência que o governo dizia dar ao modelo livre de software. O Guia foi atualizado, vejo datas de 2005 e 2006, mas nenhuma mudança relevante da primeira edição.

Até que essa semana foi lançado o site de Software Livre do Governo Federal, onde todas as iniciativas isoladas se congregam, onde praticamente todos os esforços tem sua voz. Não sei se é porque o site começou só essa semana e ainda não tem notícias próprias ou se realmente apóia iniciativas em prol do Software Livre, mas na página inicial tem um destaque para o 9º FISL que acontece de 17 a 19 de abril em Porto Alegre.

Tem mais o que ver no site, vi, por exemplo, um estudo de caso do Exército Brasileiro, com uma pequena cartilha a ser usada por todos os níveis de acordo com o tempo em que se iniciar o processo para cada uma. Pragmática e cheia de determinações, como seria de esperar numa definição de ações do Exército, dá instruções de como começar, buscar apoio, evitar resistência, seguir o cronograma, planejar a migração, começar pelos servidores e depois passar aos desktops, saber o motivo de se fazer a migração, adotar já de início o Open Office e outras.

Sendo o Exército uma instituição relativamente grande, espalhada por todo o país, com o orçamento custeado pela União, portanto facilmente rastreável, é fácil concluir que o sucesso de um projeto dessa envergadura serve de base e exemplo para a adoção do modelo livre em qualquer instância do Governo Federal, ou até de outras esferas. Não seria tão complicado assim usar a experiência como piloto e passar a adotar nos Ministérios, ainda mais que alguns deles já demonstraram inclinação para o livre e manifestaram apoio.

Alguns passos importantes já foram dados, mas a velocidade ainda é muito pequena. Já estamos na metade do segundo mandato e nenhum resultado concreto foi alcançado ou se vislumbra no curto prazo, o que pode significar uma nova mudança de gestão e o risco de um “engavetamento” sistemático de todo o processo. Mas isso não quer dizer que não existe nada, que o governo merece apenas críticas, muito pelo contrário. Se o que temos até agora é só um embrião, é porque tem pessoas no governo interessadas em movimentar isso sem força suficiente para fazer o que é necessário. Devem ser aplaudidas e ter todo o suporte possível da comunidade, principalmente a comunidade open source.

A economia gerada pela adoção de um modelo livre pode muito bem ser combinada com outras iniciativas, como o computador popular e a internet banda larga nas escolas, um projeto alavancando o outro, num ciclo virtuoso que não trará nada além de benefícios para o país, no médio e longo prazos, principalmente.

Resta saber se o governo dará andamento a esse projeto, se terá apoio político e financeiro para deslanchar, ou se teremos de esperar pela ajuda de Deus, como sugeriu o Plebe.

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. abril 16, 2008 às 8:02 pm
  2. julho 16, 2008 às 9:37 am

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