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O Eixo do Mal

Recentemente, uma decisão da empresa americana Dell gerou polêmica entre a comunidade científica brasileira. Um físico da Universidade Federal Fluminense – UFF, comprou dois computadores da empresa. Recebeu num contato após a compra, um termo de compromisso no qual o pesquisador se comprometia a não transferir, exportar ou re-exportar os produtos adquiridos para o “Eixo do Mal”, para qualquer estrangeiro com dupla nacionalidade, natural ou residente dos países em questão; não utilizar os produtos para qualquer atividade ligada a armas de destruição em massa de qualquer tipo ou transferi-los para qualquer pessoa ou grupo envolvidos nessas atividades; e nem transferir os computadores para qualquer pessoa ou grupo embargados pelo governo dos Estados Unidos.

O Eixo do Mal referido no termo, claro, é o que o presidente dos EUA, George W. Bush, assim classifica, constituído por: Cuba, Irã, Coréia do Norte, Sudão e Síria. Uma vez que quem negociou a compra dos PCs foi um colega do físico, que é cubano e mora no Brasil há anos, a empresa se sentiu obrigada pelo governo americano a exigir a assinatura do termo, alegando que poderia sofrer represálias.

O mesmo físico já havia comprado outros computadores da Dell anteriormente sem o problema, ora, se a empresa vende seus produtos sem essa exigência. Ao que parece, o fato da negociação ter sido intermediada por um colega do físico, que é cubano, motivou a atitude, e não qualquer pressão do governo norte-americano, ou a empresa faria todas as vendas da mesma forma, ou pelo menos para qualquer país que tenha relações com algum do Eixo.

Vários cientistas sugeriram boicote aos produtos da empresa, alguns foram além, sugerindo boicote a produtos norte-americanos. Sendo como for, a decisão do governo dos EUA de boicotar, inclusive obrigando (naõ sei se realmente obriga, a Dell não é santa) as empresas com sede em seu território a participarem, provavelmente não é a melhor maneira de atingir o Eixo, se é que existe um.

A política externa do governo Bush não poderia ser mais equivocada. Está baseada numa premissa correta, a economia dos EUA é a maior do mundo e dita o humor do mercado. Todo mundo sabe que isso é verdade, claro que eles também sabem, é a lógica, quem acompanha o episódio da atual crise mundial, apenas porque o mercado imobiliário deles está mal, pode ver isso com bastante clareza. Mas isso é assunto para outro post.

Baseado nessas premissas, Bush faz uma política externa que exclui o resto do mundo de qualquer decisão sobre sua política externa. Boicota quem quiser, faz guerra com quem bem entender, invade se achar necessário e por aí vai. Desde o final da Segunda Grande Guerra que os EUA adotaram o posto de “polícia do mundo”, mas isso tem chegado a extremos onde não é aquilo que parece ser consenso que eles defendem, como poderia parecer numa visão mais ingênua, onde eles ajudam a manter a democracia no mundo. Muito pelo contrário, eles mantém as democracias ou regimes totalitários que forem de importância econômica para eles.

Até aí não tem nada demais, ou pelo menos nada que quase qualquer outro país do mundo não faria se estivesse na mesma posição. O que os torna diferentes é que sua política é predatória. Vários impérios já dominaram o mundo ao logo da história, como hunos, chineses, cartagineses, persas, hititas, egípcios, gregos, romanos, só para citar os que me vieram à mente agora. Desses, os que fizeram sucesso por mais tempo, ou eram isolados ou tinham uma característica em comum, o domínio era mais econômico que político. Os países dominados continuavam com sua cultura, seus deuses, sua moeda, em muitos casos até com seus governantes. Era isso que mantinha a unidade, o pagamento de tributos era suficiente para o império dominante e justificava a aquisição de cada vez mais terras.

Na sua cruzada, Bush tem cometido absurdos em nome de sua política externa. A perseguição a Bin Laden fere a soberania do Afeganistão, mas para eles não há outro país que tenha essa característica, soberania. A guerra contra Sadan, que existe mesmo gente que acredita que era para depor o regime, suprimir a ameaça terrorista (Papai Noel também estava muito angustiado, mostrou isso em carta dirigida ao Coelhinho da Páscoa) que acabou por “exigir” a presença do exército até o final da transição do governo, aliás, o problema não é em que acabou e sim que não acabou coisa nenhuma.

Quer dizer que acho que Bin Laden não é um terrorista perigoso e deve ser deixado em paz? Não, muito pelo contrário, ele deveria ter sido deixado em paz há uns 20 anos, quando a CIA o recrutou e treinou para prejudicar a então poderosa União Soviética. Aí o problema de hoje não seria esse, nem teria esse tamanho ou repercussão. Clássico exemplo onde o feitiço se volta contra o feiticeiro.

Não sou anti-americano, até porque, na minha opinião, americano é quem vive na América e isso não quer dizer EUA, mas o continente americano. Também não sou anti-americano no sentido mais restrito, contra os EUA, até sou simpático a eles, mas tudo tem limite, uma coisa é ser simpático e outra é deixar de ser patriota. Muitas pessoas tem vergonha de ser brasileiro, bem, não é o meu caso. O que me motiva a escrever isso não é esse tipo de sentimento, que acho até pobre, se quer realmente fazer algo, faça na arena deles, nada pior para eles que perder em seu próprio terreno, o capitalismo.

A motivação seria essa história toda em volta do Eixo do Mal, querendo fazer alusão às duas guerras mundiais, comparando ao nazismo e tentando levar as pessoas a acreditar que os EUA lutam pela liberdade. Nem quem lê história em quadrinho cai nessa mais. Para mim pode até existir um Eixo do Mal, mas quem procura nos países indicados pelo Bush deve estar procurando no lugar errado. Para mim o país da liberdade é aqui, onde eu posso tudo que a lei não me proíbe.

Categorias:Opinião, Política
  1. setembro 12, 2007 às 9:37 pm

    Odeio os EUA.
    (espero que não joguem mísseis na minha casa por causa dessa afirmação)

  2. San
    setembro 13, 2007 às 4:45 pm

    Acho q tudo tem sua relevância…
    Não que eu me importe com a Dell nem com o Bush, e com Bin Laden e ele só é uma ameaça para os EUA porque ninguém sabe onde ele está nem o que planeja ele até então, alguém sabe? Alias alguém sabe onde ele mora?
    Bem, não ganho muito com toda essa informação, eu acho que no Brasil temos informações suficientes para nos deixar indignado, das matas q estão se perdendo com queimadas, da poluição no mar e rios, da fome, das doenças e etc. Acho isso sim relevante, mas li a matéria sobre o Eixo do Mal, o que não deixa de ser absurdo por isso a importância, afinal eu no lugar do físico inventaria um produto químico pra soltar na casa Branca… E viva a América! hehehe
    Ops! Isso pode falar aqui?

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